] CORPS [

 

En partant du principe, je renonce     
à mes pieds, et en remontant
je renonce à mes jambes.  

Elles frémissent et me rappellent à la vie,
mais je n’en veux plus de la vie.

En tranchant ma queue, lui attachant une pierre
pour qu’elle se couche à jamais, je songe
aux yeux de toutes ces femmes.

Je livre
au feu la sève des yeux.

Les émotions,
j’y renonce, le cœur net
ou pas, je renonce au cœur, du nombril
qui m’a lié à ma mère, je renonce à ma mère

et à tous les mots empruntés
lorsque j’ai compris que j’étais quelqu’un, je renonce à ce quelqu’un

pour devenir or, peu, feu, creux :

UN CORPS DÉVORE L’AUTRE

 

Traduit du portugais (Brésil) par Tania Henrique da Costa

 

 

] CORPO [

 

Partindo do princípio, eu desisto
dos meus pés, e subindo
eu desisto das minhas pernas.

Elas latejam e me fazem sentir vivo,
mas eu não quero mais sentir-me vivo.

Ao cortar o pau, prender nele uma pedra
até que penda para sempre, eu só penso
nos olhos de todas aquelas mulheres.

Eu entrego
ao fogo o mel dos olhos.

As emoções,
eu desisto delas todas, o coração limpo
ou não, eu desisto do coração, do umbigo
que me ligou à minha mãe, eu desisto da minha mãe

e de todas as palavras que usei
quando compreendi que era alguém, desisto de ser alguém

para ser oco, novo, fogo, ouro:

UM CORPO DEVORA O OUTRO